Imagem capa - Projeto [ainda] sem nome por Manu Rigoni
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Projeto [ainda] sem nome

Sempre fui apegada emocionalmente com pessoas idosas. E não tenho um motivo específico para tal apego. Não tive avó jovem e nem morei lado a lado com ela. Mas sempre mantive um carinho gigantesco por pessoas que acumulam anos. Uma das lembranças que tenho da infância, é de quando ia até minha vizinha conversar. Morei no sul do Brasil minha infância toda. Minha vizinha era de família alemã e fala bem arrastado o português. Eu entendia nada. Mas era tão legal visitar ela... Ela sempre tinha uma boa história para contar e aquela parede lotada de quadro de fotografias da família (essa parede jamais esquecerei).


Tinha também os dois vovôs que moravam nas casas em frente a minha. Lembro pouco, e o que eu lembro estava ligado a: serenidade, fé e cigarros de palha. Morrem antes de eu conseguir visitá-los com frequência suficiente para ver os álbuns de família.


Acho que é isso. Eu sempre amei ver álbuns de família e eles amavam me mostrar os álbuns. Era uma troca bonita, sempre regada a muito mate doce nos dias de frio e... mate gelado nos dias de calor. 


Há alguns anos resolvi que queria registrar os dias da minha avó. Mas não "resolvi resolvido"... Era um desejo. Um desejo que eu empurrava a medida que os compromissos apareciam. Mas a cada ano, era um ano a menos na vida da minha avó (na minha também, claro) e uma oportunidade que eu perdia. Então início de 2018 eu simplesmente acordei e comprei passagens para ver ela. Ver e registrar o dia a dia dela. 


Minha "nona" (italiano não chama de avó, não) hoje está com 95 anos. Com demência que acelera com o passar dos dias, um câncer de pele complicado e uma alegria invejável. Vive aos cuidados de parte da minha família, come bem, dorme mais ainda. Caminha sem parar (juro, foi difícil acompanhar dona Armelinda). Conversa como se estivesse por dentro de todos os acontecimentos e faz questão de responder a tudo, mesmo não sabendo do que se trata.


Ela ri, ri o dia todo. Ri dela, ri dos problemas, ri dos outros. Eu cheguei a conclusão que isso é 50% do que a faz ainda estar viva, os outros 50% cabem ao amor que ela ganha diariamente de quem a cuida. Os registros dos meus dias com minha nona vocês verão um dia, o dia depois de ela decidir ir embora (espero que demore). 


Ao mesmo tempo, meu marido tem uma avó de 105 anos (pasmem). Vive bem, sem uma perna, sã e come chocolate todos os dias. É a idosa mais homenageada do Dia das Mães na igreja do interior de São Paulo. Quando a conheci, há 7 anos, ela me contou sobre não aguentar mais ser a mais velha da igreja. Mas, faz parte. 


Vendo minha nona e dona Emília (que por acaso, fazem aniversário próximo uma da outra), me questionei sobre O QUE FAZ A VIDA VALER A PENA? O que é uma vida bem vivida? Minha nona criou sete filhos, trabalhou na roça a vida toda e teve uma vida com saúde de jovenzinha (ela ainda briga com a vida e insiste em ser jovenzinho, mesmo a vida tentando provar o contrário). Para dona Emília, não foi diferente: muitos filhos, muito trabalho, pouco tempo para ela. As duas são alegres e sem papas na língua... mas para elas, o que seria uma vida bem vivida? O que agora, próximo ao fim (é triste ler essa frase? É. Mas ela existe), passa na cabeça delas? Qual história elas gostariam de deixar na NOSSA história? 


Um dia mostrarei para vocês. Por ora, decidi expandir meu projeto com minha nona, com outras nonas e nonos. Com ajuda do meu marido jornalista, Lucas de Senna, e da nossa amiga Camila Tardin, vamos procurar os centenários e o que eles tem para nos contar. Sabemos que muita história, mas cada uma com seu segredo.


Nossa primeira entrevistada foi Dona Maria. Um século no último dia 02. Chorei quando ela disse que no dia dos seus 100 anos ela sentou em sua cama, levantou as mãos para o céu e agradeceu. Gratidão é a palavra que manda. Segundo ela, viver sem inimigos, com saúde e com estudo, é o que faz a vida valer a pena. 


Estamos muito ansiosos para mostrar o tanto de vida que tem nas histórias dessas pessoas. Desde já gratos!



Maria, professora por 31 anos no Pantanal, cuiabana, 100 anos.