Imagem capa - Casa do Cem por Manu Rigoni
Projetos

Casa do Cem


Sempre fui apegada emocionalmente com pessoas idosas. Não tenho um motivo específico para isso. Meus avós não eram presentes pessoalmente no meu dia a dia, pois não cheguei a morar próximo deles. Mas sempre mantive um carinho gigantesco por pessoas que acumulam muitos anos de vida, pois entendo que viver por muito tempo deve ser uma experiência e tanto.


No convívio que tive com pessoas mais idosas notei que elas tinham boas histórias para contar, além das paredes cheias de quadros de fotografia da família. Jamais esquecerei a parede de fotos de uma vizinha descendente de alemães que tive na infância. A lembrança que tenho dos dois avós que tive mais próximos da minha vida está ligada à serenidade, fé e cigarros de palha. Mas, infelizmente, morreram antes de eu conseguir visitá-los com a frequência suficiente que eu gostaria.


Sempre amei ver álbuns de família e eles amavam me mostrar esses álbuns. Era uma troca bonita, regada a muito mate doce nos dias de frio e mate gelado nos dias de calor. 


Há alguns anos resolvi que queria registrar os dias da minha avó paterna. Era um desejo que eu empurrava conforme os compromissos apareciam. Mas com o tempo percebi que à medida em que os anos se passavam, era um a menos de vida dela e da minha também, ou seja, uma oportunidade que eu perdia de registrá-la e de conviver com ela.


Então, no início deste ano de 2018 eu acordei um dia e comprei passagens para vê-la e registrar o seu dia a dia. Minha "nona" Armelinda, italiana, estava com 95 anos. Teve uma demência acelerada, câncer de pele complicado e uma alegria invejável. Viveu aos cuidados de parte da minha família, que sempre a cuidou com o máximo amor. Caminhava sem parar e conversava como se estivesse por dentro de todos os acontecimentos, fazendo questão de responder a tudo, mesmo não sabendo do que se trata. Morreu em Junho desse mesmo ano e não tive a oportunidade de finalizar o projeto dela. 


Ao ver minha nona e as pessoas mais velhas com quem tive e tenho alguma experiência e convívio pessoal, comecei a me questionar o que faz a vida valer a pena. O que é uma vida bem vivida? Como chegar numa idade tão avançada? O que fizeram? O que pensam essas pessoas? Como são suas rotinas? Quais os medos ainda têm? O que ainda esperam da vida?


Diante desses questionamentos, decidi expandir meu projeto pessoal com minha avó para outras avós e avôs de Mato Grosso e, quem sabe, do Brasil. Então, criei o projeto Casa do Cem, com a ajuda do meu esposo jornalista, Lucas de Senna, e da nossa amiga também jornalista, Camila Tardin. O nome do projeto é devido às conversas e fotos serem sempre na casa do centenário, que coloquialmente é tratado como uma pessoa que está vivendo “na casa dos cem anos”. O espaço em que cada um mora diz muito sobre como a pessoa viveu, vive e também como espera seus últimos dias, considerando que chegar aos 100 ou mais anos é algo que poucos esperam ou almejam. 


Começamos a procurar essas pessoas para mostrar, por meio de fotos, vídeos e textos, o que elas têm para nos contar. Marcamos a visita e durante as nossas conversas realizamos as filmagens. As fotos são feitas no final das entrevistas, sempre com um perfil contemplativo. 




     Dona Clô, 101 anos, descendente de libaneses. Nasceu e vive até hoje no mesmo bairro em Cuiabá-MT 




Iniciamos nossa primeira entrevista no dia 6 de maio de 2018 com uma senhora que completou 100 anos no dia 2 do mesmo mês. De lá para cá, conseguimos entrevistar mais três centenárias, todas de Mato Grosso. 


A tarefa não é muito fácil, pois dependemos do apoio e convencimento dos familiares e cuidadores, além de saber se o/a centenário/a ainda possui uma lucidez razoável para conversar conosco. Até o momento tivemos sorte e as pessoas com quem conversamos foram fantásticas! 


Conhece alguém com mais de 100 anos? Escreva para a gente: contato@manurigoni.com. 




    Hermogênea, 108 anos. Parteira até os 94. Enrola seu próprio cigarro de palha todos os dias.



      Maria, 112 anos, nascida na Bahia. Foi entregue a casamento aos 13, quando mudou-se para Cuiabá.